As fãs mulheres do BTS são vistas como “adolescentes histéricas” — e isso precisa acabar

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As fãs mulheres do BTS são vistas como “adolescentes histéricas” — e isso precisa acabar

Na noite de 19 de junho de 2019, algo que as fãs australianas do BTS frequentemente pedem para acontecer, aconteceu – seu amado grupo apareceu na TV australiana. O grupo apareceu no 20toOne, um programa de videoclipes no Channel 9 da Austrália, que fazia uma lista sobre as 20 “influências globais” naquela noite.

Entretanto, para o horror das ARMYs australianas, o BTS recebeu um destaque um tanto negativo, com o programa fazendo insinuações homofóbicas sobre os integrantes do grupo e dizendo que eles não tinham talento.

Para piorar a situação, as ARMYs também perceberam um claro racismo e xenofobia nos comentários feitos no programa. Os apresentadores apresentaram o BTS como um “ataque nuclear” da Coreia do Norte, ao se referirem ao grande sucesso do grupo nos charts musicais dos Estados Unidos, e fizeram diversas brincadeiras sobre a suposta falta de habilidade dos integrantes do grupo com a língua inglesa.

De forma bizarra, o programa também aproveitou o muito elogiado discurso do BTS na Assembleia Geral das Nações Unidas (como parte de seu papel como embaixadores da UNICEF na campanha “Love Myself”), para insinuar que o grupo apenas “falou sobre produtos de cabelo” na ocasião.

Naturalmente, as ARMYs australianas ficaram chocadas e foram às redes sociais – a “casa” do fandom, onde geralmente dominam os assuntos mais comentados – para exigir um pedido de desculpas do Channel 9 e do 20toOne, ao criarem a hashtag #Channel9PeçaDesculpas.

As fãs discordaram principalmente do fato de que o programa se baseou no comentário de celebridades comediantes que pareciam não ter conhecimento sobre K-Pop ou o BTS e, em vez disso, baseavam-se em estereótipos xenofóbicos que são comuns na imprensa australiana em relação aos asiáticos.

A exigência das ARMYs australianas por um pedido de desculpas rapidamente se tornou viral, eventualmente gerando uma declaração oficial do Channel 9 que dizia que o programa “se desculpava por qualquer ofensa causada”. As desculpas também foram traduzidas para o coreano e postadas na conta oficial do 20toOne no Twitter.

Contudo, para a maioria das fãs, o pedido não foi o suficiente, e elas continuaram com um projeto massivo, reportando o episódio à agência do BTS, Big Hit Entertainment, na esperança de provocar um processo de difamação.

[TRAD] Caro @20toOne. Hoje à noite a boyband corean, @BTS_twt foi mencionada na sua lista. Muitos ARMYs australianos estavam esperando pela aparição inicialmente, mas ficaram desapontados com vocês. Vocês nos descreveram como fãs malucos, propositalmente escolhendo trechos de vídeos onde a voz do BTS falhou, +

O furor nas redes sociais não se acalmou. Tim Blackwell, um radialista e entrevistado do programa, citou um tweet de uma ARMY e comentou, “Toquei na ferida do BTS”, aparentemente tentando diminuir a questão do racismo, transformando-a em uma “histeria de fangirl”. Ao mesmo tempo, o comediante australiano Alex Williamson infantilizou o fandom, o que muitas ARMYs entenderam como uma perspectiva mais sexista e desrespeitosa.

Além de xingar as pessoas em meio a suas respostas e comentários, Williamson não deixa de lado o tom irônico e depreciativo ao falar das fãs de boybands. Apesar de começar falando apenas sobre o BTS, Williamson faz questão, em um dos comentários, de enfatizar que o “problema”, segundo ele, são boybands no geral.

Williamson, contudo, mostrou seu respeito particularmente aos homens e autoridades coreanas, como o pesquisador Cheon Jin-woo e o atleta Son Heung-min, argumentando que “Homens e mulheres coreanos de sucesso, que fazem algo genuinamente importante no campo da ciência e da medicina, me impressionam”, apesar de generalizar as ARMYs, chamado-as de “garotas de 14 anos que dão todo o seu dinheiro para boybands manufaturadas”. Sem grandes surpresas, ele nunca mencionou uma mulher que fosse autoridade nesses campos ou o fato de que as mulheres enfrentam grandes dificuldades e preconceito nos campos da ciência e medicina.

Será que as boybands não merecem respeito puramente por serem, aparentemente, valorizadas apenas por “garotas de 14 anos que não têm educação”? Estamos surpresos em ver Williamson respeitar campos predominantemente dominados por homens, como a ciência e a medicina, e desmerecer fãs de música pop, algo que é frequentemente feminilizado pela imprensa de massa?

Iremos nos abster de comentar sobre as alegações feitas por Williamson e outros que deturpam a diversidade do fandom (é só olhar para nós, somos cientistas humanos e sociais, mas também grandes ARMYs! Muitos de nós são homens – choque e horror!). ARMYs em todo o Twitter expressaram esta mensagem por nós:

[TRAD] Obrigada por achar que eu tenho 14 anos e uso o dinheiro dos meus pais, apesar de eu ser uma advogada e empresária de 26 anos que faço o meu PRÓPRIO dinheiro desde os 8 anos. Eu me sinto tão nova E ESTOU DIVIDINDO MEU DINHEIRO COM OS MENINOS DE BOM GRADO porque eles, ao contrário de você, são merecedores. E aguarde o processo vindo.

Ao invés disso, gostaríamos de falar sobre como Williamson usa de retórica estereotipada para patologizar o fandom e infantilizar as mulheres.

“Patologia do fandom” refere-se à associação de um fandom com nuances negativas de tolice, obsessão excessiva e frenesi histérico. Apesar do foco claro dos ARMYs no racismo dos comentários feitos, além das ações coletivas e as vozes expressas em seus movimentos utilizando hashtags, muitos não veem essas coisas como uma forma de protesto online estratégico, mas sim como um “culto” irracional e caótico:

[TRAD] #ARMYscomBTS Isso é um comportamento de culto insano. O Twitter e a “cultura de cancelamento” criou grupos loucos de pessoas que vivem para isso porque elas não têm mais nada em suas vidas que os tragam felicidade.

A infantilização de fãs, especialmente fãs mulheres, no cenário musical popular, é outro típico (e conveniente) jeito de diminuir a gravidade da voz de expressão de uma pessoa: “Como um homem adulto racional, eu não tenho que ouvir a histeria de jovens mulheres”.

Tentativas de infantilizar mulheres e diminuir suas vozes não é algo novo:  é algo incrivelmente fácil de se encontrar na imprensa, em locais de trabalho, e no cenário político. O caso do Channel 9 e Williamson mostra que não podemos fugir da infantilização das mulheres até mesmo em nossas atividades de lazer.

O mais irritante é como essa infantilização aconteceu dentro de um contexto que também normaliza a natureza monocultural da televisão australiana, que tem sido regularmente criticada por pessoas não brancas pela falta de diversidade.

Ao falar com as fãs, ouvimos diversas vozes desaprovando as críticas monoculturalistas como forma de “rejeição” à promessa cosmopolita do multiculturalismo australiano, feitas por programas como o 20toOne, que parecem ignorar o fato de que um em cada 10 australianos nasceu ou é filho de alguém nascido na Ásia.

Por fim, há um final positivo para esse caso de racismo e sexismo. Uma das maiores contas australianas para o BTS no Twitter, @BTS_aus, iniciou ativamente uma campanha para mostrar ao mundo que o grupo revolucionou o envolvimento australiano com a Ásia.

A hashtag entrou em sexto lugar como assunto mais falado na Austrália, na data de escrita deste artigo, e a imprensa australiana foi rápida em condenar o Channel 9 (incluindo o Serviço Especial de Transmissão Multicultural). O caso mostra o poder das ARMYs, que são grandes ativistas sociais, e que buscam justiça contra o racismo e a misoginia, onde quer que eles estejam ocorrendo.

Fonte: Hello Asia

Artigos | por em 09/07/2019
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