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Publicado em 02.10.2018
BTS e os paralelos histórico-políticos entre Brasil e Coreia do Sul
O voto é seu, mas o futuro é nosso. Como você vai usá-lo?

Aviso de gatilho: Este artigo trata de assuntos históricos que envolvem, dentre outros assuntos, a ditadura militar no Brasil e na Coreia do Sul, e aborda questões como massacres e assassinatos estudantis. Se esses assuntos lhe causam qualquer tipo de desconforto, leia com cautela.

Brasil e Coreia do Sul dividem mais semelhanças do que diferenças em suas trajetórias, ainda que em momentos distintos das suas histórias. Ambos países foram colônias de exploração e tiveram sua cultura nativa praticamente apagada no período colonial — Brasil, por Portugal; Coreia (que só seria dividida em definitivo em 1948), pelo Império Japonês; passaram por regimes militares que ditaram cruelmente seu futuro e, hoje, representam duas das maiores democracias das suas regiões com eleições democráticas periódicas.

Em meados dos anos 1960, Brasil e Coreia do Sul vislumbravam contextos políticos que demonstravam as dificuldades que essas duas nações ainda enfrentariam ao longo da sua história. O Brasil encarava o final da sua Quarta República, o período populista de Getúlio Vargas também conhecido como República Nova, e o despertar da Ditadura Militar de 1964, e a Coreia do Sul enfrentava as consequências da sangrenta Guerra da Coreia, que terminara em armistício e sem acordo de paz em 1953, lidando com a pobreza da sua população e insustentabilidade das suas instituições políticas.

Nesse período, ambos países viviam a fragilidade da democracia. Segundo Richard Kimber, no artigo “On Democracy” (1989, p. 200), o que entendemos por “democracia” hoje em dia é um conceito moderno e deve ser analisado de forma moderna. Ainda que estudiosos e especialistas hesitem em dar definições sólidas e resolutivas para o termo, o autor argumenta que a democracia é, por fim, “uma série de princípios colocados em prática de diferentes maneiras em diferentes contextos” e não deve ser vista através de “um padrão fixo particular de acordos institucionais” (KIMBER, 1989, p. 213). Ou seja, cada país e instituição política que pratica a democracia, a pratica a partir do seu próprio contexto histórico que é único e distinto de qualquer outro.

De 1964 a 1985, o Brasil passou pelo Período Militar que, sob a justificativa de “livrar o país da corrupção e do comunismo” e de “restaurar a democracia” após o período getulista, passou a mudar as instituições do país através dos Atos Constitucionais (AI) e modificações na Constituição Federal de 1946 (FAUSTO, 2001, p. 257). Pouco antes, na Coreia do Sul, a Segunda República, liderada pelo Presidente Yoon Po-seon, foi derrubada pelo General Park Chung-hee no que hoje é conhecido como Golpe Militar de 16 de maio de 1961, acreditando que conseguiria endereçar a pobreza generalizada da Coreia do Sul através de restrições da liberdade diplomática da população, tendo como lema do seu governo “economia agora, democracia depois” (KIM, 2005, p. 168).

Nos primeiros anos da ditadura no Brasil, em 1968, o estudante Edson Luís de Lima Souto foi assassinado por policiais militares em um restaurante na região central do Rio de Janeiro durante uma manifestação estudantil contra o regime. Segundo o Memórias da Ditadura (2018), “estudantes conseguiram resgatar o corpo de Edson Luís e o carregaram em passeata pelo centro do Rio até as escadarias da Assembleia Legislativa, na Cinelândia, onde foi velado”. O assassinato de Edson causou revolta e protestos em várias regiões do país, incluindo na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), na Escola Politécnica da USP, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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Caixão com o corpo do estudante Edson Luís é carregado por estudantes pelo centro do Rio de Janeiro, 28 de março de 1968 (Fonte: Memórias da Ditadura, 2018).

De maneira semelhante, em 1980, em meio ao contragolpe instaurado por Chun Doo-hwan após a morte de Park Chung-hee, ocorre o Massacre de Gwangju (também reconhecido como Movimento Democrático de 18 de Maio pela UNESCO) onde estudantes da Universidade de Chonnam, que protestavam contra a lei marcial, foram agredidos e assassinados, causando a revolta da população local contra os militares (KINGSTON, 2014; UNESCO, 2018). Os números oficiais do governo divulgaram 190 mortos, no entanto estudiosos como Sallie Yea falam em cerca de duas mil pessoas mortas no massacre, entre estudantes e cidadãos (YEA, 2002, p. 1557; KINGSTON, 2014).

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Soldado agride homem durante os protestos contra o regime militar em Gwangju, 18 de maio de 1980 (Fonte: Japan Times, 2014).

SUGA, quando ainda era integrante do grupo de hip-hop D-TOWN e atendia pelo nome artístico Gloss, endereçou o Massacre de Gwangju na canção “518-062” (“518” se refere à data do massacre, 18 de maio, e “062” é o código de área da região de Gwangju). Ainda que não seja o artista interpretando o rap, SUGA compôs e produziu a música, que traz trechos como: “Seus estômagos e seus corpos estão tomados pelos ferimentos da bandeira / Querido, vou acender seus anseios novamente / Irmãos, vou memorizar suas feridas sem pausa” e “O vento turvo, o chão cheio, as sementes caindo do céu / 5-1-8 o dia do passado sombrio / Para essa nova história que / Nasceu desse tempo que passou / Levante suas mãos”. Com o rap, SUGA enfatiza que o Massacre de Gwangju não pode ser esquecido para que jamais volte a acontecer. Como o Massacre de Gwangju, Edson Luís é a nossa memória de tempos que não podem nunca voltar.

As primeiras eleições presidenciais pós-ditadura aconteceram com dois anos de diferença no Brasil e na Coreia do Sul. Em 1985, o Brasil elege (indiretamente, ou seja, por meio de colégio eleitoral e não por voto direto) Tancredo Neves e, em 1987, a Coreia do Sul elege Roh Tae-woo. No entanto, Tancredo Neves morre antes de assumir o posto e José Sarney, seu vice, se torna Presidente do Brasil em seu lugar. Roh Tae-woo, General do Exército da República da Coreia, por outro lado, mantinha laços suspeitos com Chun Doo-hwan, responsável pelo segundo golpe de Estado no país e o Massacre de Gwangju. As primeiras eleições diretas brasileiras ocorreriam somente em 1989, elegendo Fernando Collor de Mello. O primeiro presidente civil eleito da Coreia do Sul, Kim Young-sam, assumiria o posto somente em 1993.

A democracia no Brasil e na República da Coreia é tão frágil quanto recente, e todas essas circunstâncias somente acrescentam à importância do voto consciente e democrático. Antes da criação do BTS, RM compôs a música “닥투 (Vote, or Just Shut Up)”, onde critica as medidas governamentais que proíbem menores de 19 anos (idade internacional) não só de votar nas eleições gerais mas também de manifestar suas opiniões e participar de campanhas eleitorais em qualquer âmbito, seja online ou offline. RM, então com 18 anos em 2012, diz:

“Tenho 19 anos* e não tenho direito de votar
Você sabe que o futuro também é meu, vamos!
(…) Então, desistir do seu voto não está deixando as coisas neutras. É apenas um voto não declarado.
Vá votar ou fazer algo, antes de culpar qualquer um e fazer críticas.
É como o vestibular (por quê?)
Porque tudo depende de como você faz.
Se você não pegar alguma coisa, então não espere nada de significativo.
Durante os 5 anos, você vai notar a importância daquele pedaço de papel?
Voz de todos, vote apenas
Se você quiser expressar as suas opiniões, então vá em frente pelo voto.
O poder que você e eu possuímos.
A fim de não eleger o adversário, continuamos a campanha.
Chamar-nos de uma nação é errado enquanto você está sendo apático.
O voto é seu, mas o futuro é nosso.”

*N/T: idade coreana

O BTS, enquanto grupo, já deixou claro diversas vezes que o dever cívico do voto é um que precisa ser levado a sério, ainda que a Coreia do Sul não possua lei de voto obrigatório. É através dele que exercemos nosso papel de cidadão em uma democracia e esclarecemos nosso poder.

RM posa com o carimbo símbolo das eleições na Coreia do Sul após votar para as eleições presidenciais de 2017.

Para nós, brasileiros, o dever cível do voto está marcado para o dia 7 de outubro. Nessa data, vamos escolher presidente, governador, dois senadores, deputado estadual e deputado federal. As pessoas eleitas irão compor o poder executivo — no caso do presidente e dos governadores — e o poder legislativo — no caso dos senadores e deputados. Por isso, é muito importante que se leve esse dever e poder a sério.

Não somente por nós, agora, mas por nosso passado e futuro. Por Edson Luís, pelos mortos da ditadura, por aqueles que foram torturados e aqueles que jamais serão encontrados. Também por Gwangju, um exemplo tão distante mas que serve de lembrança do que pode ser ameaçado junto com a fragilidade da democracia. Por mulheres, pessoas LGBTQ+, negros, pobres, minorias. Pela geração que vem, crianças e jovens que viverão no futuro que nós temos a capacidade de moldar.

O voto é seu, mas o futuro é nosso. Como você vai usá-lo?

 

“Um povo sem memória é um povo sem história.
E um povo sem história está fadado a cometer,
no presente e no futuro, os mesmos erros do passado.”

Emília Viotti da Costa

Escrito por Ana Luiza Rivera @ BTSBR

REFERÊNCIAS
FAUSTO, B. História Concisa do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.
KIM, D. K. The History of Korea. Westport: Greenwood Press, 2005.
KIMBER, R. On Democracy. Scandinavian Political Studies, v. 12, n. 3, p. 199-219, 1989.
KINGSTON, J. Dying for democracy: 1980 Gwangju uprising transformed South Korea. Japan Times, 17 maio 2014. Disponível em <https://www.japantimes.co.jp/news/2014/05/17/asia-pacific/politics-diplomacy-asia-pacific/dying-democracy-1980-gwangju-uprising-transformed-south-korea/#.W5sXw-hKjIV> Acesso em 13 set. 2018.
MEMÓRIAS DA DITADURA. Edson Luís de Lima Souto. Disponível em <http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/edson-luis-de-lima-souto/index.html> Acesso em 13 set. 2018.
UNESCO. Human Rights Documentary Heritage 1980 Archives for the May 18th Democratic Uprising against Military Regime, in Gwangju, Republic of Korea. Disponível em <http://www.unesco.org/new/en/communication-and-information/flagship-project-activities/memory-of-the-world/register/full-list-of-registered-heritage/registered-heritage-page-4/human-rights-documentary-heritage-1980-archives-for-the-may-18th-democratic-uprising-against-military-regime-in-gwangju-republic-of-korea/> Acesso em 13 set. 2018.
YEA, S. Rewriting Rebellion and Mapping Memory in South Korea: The (Re)presentation of the 1980 Kwangju Uprising through Mangwol-dong Cemetery. Urban Studies, v. 39, n. 9, p. 1551-1572, 2002.


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