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Publicado em 06.10.2018
De Girls’ Generation ao BTS: Como o K-Pop mudou o mundo
O BTS é um dos poucos grupos que ousam ultrapassar os limites na Coreia do Sul

O discurso do BTS na Assembleia Geral das Nações Unidas pode ser entendido como o passo seguinte do soft power coreano: tomar conta do mundo, um país e um super artista por vez

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No dia de abertura da Assembleia Geral da ONU, o grupo de K-Pop mais popular do mundo, BTS, subiu ao pódio e discursou para uma sala cheia de burocratas e líderes mundiais. Normalmente conhecidos por seus visuais ousados e inspirados pelo hip-hop, os sete integrantes vestiram ternos pretos discretos, enquanto o líder, RM, falou por seis minutos e meio sobre o trabalho do grupo com a UNICEF, para a qual eles arrecadaram mais de 1.1 bilhão de wons (US$ 986.000) durante o último ano.

Ele também comentou sobre a mais nova iniciativa da UNICEF para a educação e treinamento de jovens, “Generation Unlimited”, e encorajou a audiência a falar sobre o que pensam e a amar a si. “Não importa quem você é, de onde você é, a cor da sua pele, sua identidade de gênero – apenas fale por si mesmo”, ele disse. “Encontre seu nome e encontre sua voz, fale por si”.

Em um encontro no qual a comunidade global discute sobre mudança climática, multilateralismo e manutenção da paz, a pergunta de todos era qual o lugar do K-Pop nas questões internacionais.

Pode parecer bizarro que uma boyband perfeita, criada por uma indústria conhecida por seus ídolos super manufaturados e altamente reprimidos – senão oprimidos – daria um discurso sobre auto-estima e identidade na ONU. Mas o BTS não é qualquer grupo de K-Pop. De acordo com seus fãs por todo o mundo, eles são um dos poucos que ousam ultrapassar limites na Coreia do Sul, onde suas canções e declarações tratam de grandes tabus sociais incluindo suicídio, abuso e direitos LGBTQ+.

“Em sua música, eles cantam sobre temas controversos como auto estima e saúde mental”, comenta Tessa Ariella, uma estudante da Yonsei University na Coreia do Sul, e diz que o BTS é também muito grande na Indonésia, seu país de origem. “O BTS é diferente de outros grupos, eles alcançam a todos.”

Enquanto o gênero vem crescendo na última década, o BTS é um dos poucos grupos de K-pop que atingiram a massa na América do Norte. De várias formas, os Estados Unidos representam o santo graal para estrelas de K-pop, como um mercado inexplorado e por conta da credibilidade recebida quando adentram este ramo, de acordo com Jenna Gibson, uma expert em K-pop e estudante de pós-doutorado em Relações Internacionais na Universidade de Chicago.

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O grupo de super estrelas, Girls’ Generation, tentou sem grande sucesso entrar no mercado Estadunidense

O problema sempre foi a barreira linguística. Muitos grupos, incluindo Girls’ Generation, Wonder Girls, e até o PSY – que não conseguiu repetir seu sucesso com Gangnam Style – não conseguiram adentrar no mercado estadunidense. “Tudo mudou com o BTS,” Gibson diz. “O BTS fez um grande sucesso nos últimos anos trabalhando muito dentro dos Estados Unidos. Eles fizeram pequenos shows, passaram tempo construindo uma base de fãs norte-americana, e se dedicaram a procurar o sucesso no país de baixo para cima”.

Com sua relativa sinceridade – pelos padrões sul-coreanos – ao abordar a vida e as dificuldades, além de seu grande esforço em divulgação e estratégias nas redes sociais (o grupo tem mais de 16,5 milhões de seguidores na sua conta super ativa do Twitter), a recente aparição do BTS na ONU demonstra como a nova era do soft power do K-pop acontece para além da Ásia.

“Na Coreia, com seu índice de suicídio extremamente alto e o grande nível de desesperança entre os jovens devido ao desemprego e a competitividade da sociedade coreana, o BTS está tentando fazer a diferença em seu alvo demográfico – pessoas jovens,” afirma Cedar Bough Saeji, um pesquisador de pós-doutorado na University of British Columbia’s Korean Foundation. “Trabalhar com a ONU é uma continuação lógica a isso”.

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As músicas e declarações do BTS tratam de tabus sociais importantes, como suicídio, abuso e direitos LGBTI

Soft power é sobre atrair o público estrangeiro a ser mais interessado no que seu país tem a oferecer, diz Gibson. “K-pop é a principal ferramenta de soft power da Coreia, porque é apresentado em coreano, e é fundamentalmente coreano de muitos jeitos. O K-pop tem o poder de fazer os fãs quererem aprender mais sobre a música, sobre a indústria, e sobre o país de onde isso vem.”

O K-pop inclusive ajudou a fazer do idioma coreano a última moda em algumas improváveis partes do mundo. Em uma pesquisa com 20 mil fãs de K-pop na Algéria no último ano, 93% dos entrevistados afirmaram usar palavras e gírias coreanas no seu dia-a-dia, de acordo com um relato do Quartz.

“Existem muitos estudos documentando como o K-pop e outros produtos culturais, como os dramas, auxiliaram no crescimento do turismo na Coreia e no aumento de estudantes de coreano”, comenta Gibson.

O K-pop tem mais potencial de soft power do que a música pop estadunidense, porque vem com menos bagagem colonial e política, diz Saeji. “O K-pop vem de um país pequeno, o qual a maioria dos países do mundo sabem muito pouco sobre, um país que nunca foi colonizador e nunca fez guerras em países vizinhos,” ela conta. “Ele pode ganhar ou perder nos seus próprios méritos e atrair jovens não porque sabem sobre a Coreia, mas porque os elementos coreanos no K-pop são novos, originais e – de um modo que a cultura pop americana nunca poderia ser – neutros”.

Mesmo assim, enquanto a visão de estrelas asiáticas do pop altamente subordinadas, aventurando-se na diplomacia ou política mundial, pode parecer surpreendente, o soft power único desses artistas não é estranho à diplomacia regional asiática.

As menções populares do político japonês Shinjiro Koizumi sobre o grupo TWICE enquanto discutia sobre um aumento de trocas culturais entre o Japão e a Coreia do Sul, em janeiro, provocou feedbacks positivos em ambas nações.

[TRAD] “O político japonês Sr. Shinjiro Koizumi disse que eles deveriam aumentar a troca de cultura e arte entre os dois países (Japão e Coreia do Sul). Ele também mencionou o Twice, que apareceu, ano passado, no Kouhaku da NHK e é bem popular no Japão, tendo três integrantes japonesas no grupo TWICE”.

Tais tentativas não são imunes ao criticismo, no entanto. A visita do grupo japonês AKB48 à Tailândia e a apresentação privada para o Primeiro-Ministro Prayuth Chan-ocha, transmitida aos cidadãos pelo Facebook (havendo críticas sobre uma tentativa do líder militar de ganhar apoio da juventude), é um exemplo não muito bem recebido.

Uma coisa que todos concordam é que os ídolos, em muitas formas, são diplomatas perfeitos. “Devido ao seu treinamento, eles são muito cuidadosos em frente a câmeras e tendem a ter um comportamento perfeito em público. Isso faz deles ótimos para oportunidades fotográficas,” fala Saeji.

Nas relações coreanas, estrelas do K-pop já tiveram uma grande participação nos dois lados. Da propagação em alto volume das canções de Girls’ Generation através da fronteira demarcada – uma atividade que provocou muita ira da Coreia do Norte, e que foi recentemente interrompida por causa da melhora das relações – até as recentes apresentações de grupos sul-coreanos como Red Velvet, Ailee e ALi em Pyongyang, especialistas dizem que a música pop tem ajudado e muito a normalizar a relação entre as Coreias.

“Considerando que a própria esposa do Kim Jong-un foi parte do famoso grupo de pop norte-coreano Moranbong Band, um grupo criado pela diretiva do governo para ser usado para propósitos nacionalistas, não é surpreendente ver Moranbong Band e Red Velvet… Como parte dessa tentativa de aproximação,” afirma Saeji. “Essa nova incorporação positiva do K-pop na reaproximação é ainda muito nova… Quem sabe o que o futuro vai trazer.”

É fácil desprezar o K-pop como bobo, fraco e frívolo, adiciona Gibson. “Esses artistas de K-pop vão mudar o curso da paz na península coreana? Com certeza não. Mas seu envolvimento na diplomacia é um grande medidor de pressão das relações inter coreanas,” ela argumenta. “O poder de atração pode ser uma ferramenta muito poderosa na política internacionais se a Coreia do Sul utilizá-la sabiamente”.

Fonte: South China Morning Post
Trad eng-ptbr; clau @ btsbr



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