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Tag: BUniverse

Publicado em 10.07.2018
BUniverse: Convergência de mídias na construção de uma narrativa
O BTS abraçou o storytelling desde os primórdios de sua carreira!

Em maio de 2018, a Lucasfilm e a Disney entregaram para o mundo seu ambicioso Han Solo: Uma História Star Wars, o segundo título de uma antologia dedicada a histórias paralelas da famosa franquia iniciada em 1977. O objetivo dessa produção é simples: expandir ainda mais um universo já cativo do público, utilizando uma história não contada de um personagem amado e importante no espectro da cultura pop. Mas enquanto o primeiro título dessa antologia, Rogue One – lançado em 2017 e focado na história preliminar ao filme original da saga -, foi um sucesso de público e crítica, Han Solo gerou um prejuízo de entre 60 a 90 milhões de dólares, jogando um balde de água fria nos projetos já em desenvolvimento para outros longas do mesmo estilo.

A palavra universo vem sido usada em larga escala para classificar grandes arcos de histórias construídas por franquias cinematográficas nos últimos anos. Populares entre o público estão sagas como Transformers, Jurassic Park, Matrix e até mesmo os filmes do diretor Quentin Tarantino. A Marvel Studios, também propriedade da Disney, talvez tenha a maior referência atual do chamado universo compartilhado, tendo começado em 2008 com o lançamento do primeiro Homem de Ferro. O sucesso dessa empreitada completa dez anos com seu último lançamento, Vingadores: Guerra Infinita, se tornando a quarta maior bilheteria de todos os tempos. A estratégia da Marvel deu tão certo que praticamente obrigou sua maior concorrente, a DC Comics, a trabalhar em seu próprio arco de histórias, embora o mesmo ainda engatinhe para encontrar o mesmo tipo de aclamação do público.

O admirável nesse tipo de entretenimento é que durante a sua expansão o conteúdo já não pertence mais apenas a mídia onde originalmente surgiram. Voltando a Star Wars, por exemplo, a primeira imersão nesse universo se deu pelos três primeiros filmes nos anos 70 – Uma Nova Esperança, O Império Contra-ataca e O Retorno do Jedi – e continuou com a segunda parte da trilogia lançada entre 1999 e 2005 – A Ameaça Fantasma, Ataque dos Clones e a Vingança dos Sith. Em 2015, o primeiro filme de uma terceira trilogia, chamado o Despertar da Força, chegava às telas, seguido de Os Últimos Jedi em 2017. Em 41 anos de existência da franquia, 10 longa-metragens foram entregues ao público, mas a história de Star Wars não ficou presa a esses filmes. Filmes e séries de animação, jogos de videogame, livros e histórias em quadrinhos deram aos fãs outros personagens e cenários dentro do mesmo mundo em diferentes épocas, preenchendo (ou em alguns casos aumentos) os buracos que o cinema não conseguiu cobrir. Aqueles que apenas assistiram os filmes não reconhecem nomes como Ezra Bridger ou Kanan Jarrus, personagens da série animada Star Wars Rebels que acompanha os anos entre A Vingança dos Sith e Uma Nova Esperança.

Esse tipo de construção de universo de entretenimento recebeu o nome de cultura de convergência, abordada por Henry Jenkins em seu livro de mesmo título. É diferente de uma adaptação, onde a mesma história é contada através de duas mídias diferentes – como Harry Potter em seus primeiros anos, embora nos últimos tempos a autora tenha expandido sua narrativa na internet e no teatro, com seu próprio mundo compartilhado, ou a própria Marvel, que primeiramente adaptou seus quadrinhos, mas aumentando seu conteúdo através de suas séries originais na Netflix e curtas-metragens lançados em seu site -, na convergência, cada capítulo ou trecho pode ser entregue por um veículo diferente – um jogo, uma série para a TV, um vídeo no YouTube, um aplicativo para celular: as possibilidades são infinitas.

A convergência de conteúdos acaba sendo uma ferramenta atrativa tanto em questões financeiras quanto criativas. Fãs encantados por essas franquias são mais propensos a adquirir qualquer tipo de material que sacie essa necessidade constante de novas informações,movimentando diversos setores da indústria, enquanto desenvolvedores podem contar histórias que ficariam na gaveta por não se adaptar a um determinado formato. Além disso, a longevidade também é estendida quando compartilhada entre mídias – os quase cinquenta anos de Star Wars e os cinquenta e cinco da britânica Doctor Who na cultura popular não deixam dúvidas disso.

Fórmula perfeita para a indústria cinematográfica multimilionária dos Estados Unidos, mas também para certo grupo de hip-hop/pop de uma pequena empresa da Coreia do Sul.

O BTS abraçou o storytelling desde os primórdios de sua carreira. O pontapé inicial para suas aventuras no mundo da narrativa musical foi a Trilogia Escolar, com o 2 Cool 4 Skool e o O!RUL82? de 2013 e o Skool Luv Affair de 2014. Os três trabalhos entregaram histórias sobre temas comum a jovens estudantes – na Coreia e no mundo: a rigidez dos professores e o sistema escolar, a pressão dos pais e as expectativas para o futuro, os romances nascidos em salas de aula. Para seu primeiro álbum completo de estúdio, o Dark&Wild, de 2014, a consistência de um mesmo tema para todas as canções foi mantida, e as dores de um coração partido foram abordadas.

Mas o império criativo que o BTS possui em mãos atualmente começou a ser construído em 2015, com o The Most Beautiful Moment in Life Part 1. O termo BUniverse não seria usado até 2017, tendo aparecido pela primeira vez com a sigla B.U na contracapa do Wings Concept Book, mas o primeiro capítulo dessa história tomou forma com o vídeo de I NEED U. Sete garotos lidando com a própria juventude e os desafios do momento mais belo da vida são a base de uma estratégia criativa que vai muito além da dita “popularidade nas redes sociais” a que o sucesso do grupo é erroneamente creditado.

Nos últimos três anos, o BTS usou suas músicas, vídeos, turnês, ensaios fotográficos, redes sociais e álbuns físicos para contar sua história de narrativa não-linear – assim como Star Wars, os fatos não seguem uma ordem de início, meio e fim. Os curtas produzidos para anunciar o álbum Wings, de 2016, fazem alusão a elementos presentes nos clipes de I NEED U e Run, enquanto os álbuns Love Yourself: Her e Love Yourself: Tear trazem mini-livros com cartas escritas antes e depois dos acontecimentos mostrados naqueles clipes. Vídeos exibidos na The Wings Tour davam pistas de clipes futuros e explicavam alguns momentos do passado. Apresentações em premiações de final de ano na Coreia mostraram títulos de futuros álbuns e músicas e temas que o grupo exploraria no futuro.

O grande trunfo do grupo, na realidade, não está apenas na criação de seu próprio universo, mas em dar ao seu público a chance de participar da construção do mesmo. Diferentemente de universos cinematográficos onde o conteúdo é entregue pronto, aqui são os fãs que precisam juntar os pontos, encontrar as referências e interpretá-las, criando suas próprias teorias em cima do material fornecido. O BTS transformou seu universo em um grande quebra-cabeça e deu para o seu ARMY a liberdade de montá-lo do jeito que para eles fizesse mais sentido, guiando-os em alguns momentos cruciais. O grupo assim estimula o engajamento e a lealdade de seus fãs, dando a eles algo pelo que esperar e se surpreender.

Um dos momentos mais interessantes dessa trajetória aconteceu em 2017, para promover o lançamento do mini-álbum Love Yourself: Her. Com boatos de um comeback se aproximando, os fãs começaram a ficar atentos às informações divulgadas pelo próprio BTS e a BigHit Entertainment. Em 9 de agosto, Jin postou no Twitter do grupo uma selfie, acontecimento comum no cotidiano dos fãs, mas o buquê de flores que ele segurava e a legenda que apenas continha a palavra Smeraldo levou os mais antenados a uma pesquisa rápida no Google sobre a palavra em questão. Um resultado chamou atenção: um blog de uma floricultura prestes a abrir em Seul especializada em Smeraldo, a exata mesma flor mostrada por Jin. No blog também foram encontradas histórias de como essa floricultura foi concebida, além da história da flor. Fotos no instagram da loja mostravam um bilhete com uma caligrafia absurdamente similar a de Jin, alegando que aquele era o bilhete do primeiro comprador a encomendar um buquê de Smeraldos. Um concurso realizado no blog também prometeu enviar buquês para “sete histórias” que confessassem os verdadeiros sentimentos em relação a alguém. Quando salvas, as imagens do blog tinham a legenda de BTS_Smeraldo.

Com o lançamento do primeiro Highlight Reel no YouTube em 15 de agosto, os fãs puderam confirmar que todas as informações presentes no blog da floricultura eram pistas para o novo trabalho – a flor aparece no diário que uma garota deixa cair perto do Jin nos primeiros segundos de vídeo. No terceiro Highlight Reel, é possível ver o caminhão da floricultura entregando um buquê de Smeraldos para ele. O conteúdo da mensagem do cartão, em português “A verdade não dita”, apareceu novamente em 2018 no título da canção The Truth Untold, do Love Yourself: Tear, e existem referências a história da Cidade de Smeraldo, postada no blog, nas canções Singularity e The Truth Untold.

É importante notar, porém, que de nada adianta um universo bem construído sem a qualidade do conteúdo principal: a música. O BUniverse aproximou o BTS dos fãs e garantiu uma conversa entre eles, mas ele serve apenas como pano de fundo para o talento musical e a beleza do trabalho entregue pelo grupo em suas canções. Sem elas, não haveria um interesse na narrativa construída. Vale ressaltar também que o BUniverse não atrapalha o alcance do grupo ao público geral. É possível aproveitar a música e os clipes sem usar toda a energia possível no entender de teoria e nas buscas de pistas em livros como Demian, de Hermann Hesse ou Into The Magic Shop, de James R. Doty.

Os próximos capítulos e como será a conclusão do BUniverse, só o tempo e a BigHit podem dizer, mas o seu alcance e o sucesso de sua narrativa são incomparáveis desde já.

 

Escrito por Maureen Heinrich @ BTSBR