A complicada euforia de ser uma garota negra no fandom ARMY

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A complicada euforia de ser uma garota negra no fandom ARMY

“Qual o seu grupo favorito?”, uma garota que estava ao meu lado na fila me perguntou, enquanto mexia em sua bolsa cheia de pulseiras da amizade. Era um sábado quente de julho, e eu tinha acabado de chegar na KCON de Nova York — a minha primeira vez neste evento anual, que começou em 2012, dedicado aos fãs estadunidenses que gostam de K-Pop. Ela me olhou questionadora, com suas bochechas cheias de glitter.

“BTS?” eu respondi, nervosa.

Antes que eu conseguisse pensar em uma resposta menos óbvia, ela já estava colocando um pedaço de fita roxa e branca com bordas prateadas em meu braço que dizia B-A-N-G-T-A-N — o nome da maior boyband do mundo, em coreano.

A verdade é que eu comprei o ingresso para a convenção justamente por conta do BTS. Ser negra e fã de um grupo asiático que claramente se inspira na criatividade e inovação da cultura negra — da música à coreografia — me deixou curiosa, principalmente em relação às fãs negras que orgulhosamente se identificam como ARMYs. Toda essa euforia externa seria apenas uma máscara para as preocupações e problemas não ditos?

Na KCON, essas ARMYs devotas eram facilmente reconhecidas na multidão de fãs de diferentes fandoms do K-Pop: bastava procurar os rostos marrons com tiaras da marca de produtos oficiais do BTS em parceria com a Line, o BT21.

A alegria delas era contagiante, mas quando o assunto era a questão racial, muitas delas foram extremamente sinceras. Nas semanas seguintes, eu me reencontrei com algumas delas que concordaram em compartilhar suas experiências sobre os altos e baixos de ser uma fã negra do BTS.

A primeira coisa que eu notei sobre Dezzire Keeling foi que ela parecia não parar de rir. A garota de 24 anos e mestranda na área de aconselhamento em saúde mental estava tentando explicar como um grande pôster de V que ela tem em seu quarto em Maryland deixou sua família completamente confusa., mas ela mal conseguia falar.

“Eu comecei a tocar violoncelo recentemente, e fiz uma chamada no Skype com a minha tia para mostrar a ela,” ela disse. “E ela ficou tipo, ‘Dezzire! É um garoto chinês na sua parede?’”

“E eu disse, ‘Ele é coreano!’. Então eu disse a ela quem ele era, e que ele seria seu futuro sobrinho. Ela morreu de rir!”.

Keeling encontrou um vídeo de uma apresentação ao vivo do solo de V, “Singularity”, no ano passado. Confundindo-o com uma estrela de R&B em ascensão, ela entrou em um buraco na internet que a levou a mais apresentações ao vivo do BTS, memes, e vídeos de reality shows que o grupo já participou, como o Bon Voyage — que ela rapidamente maratonou.

Conforme ela foi conhecendo um pouco mais de cada um dos integrantes, ela apresentou sua colega de quarto e companheira de KCON, Desiree Watkis, ao grupo. “Eu achei eles fofos, e fui me envolvendo com a música,” disse Watkis, professora de ensino fundamental.

Mas Keeling logo fez algo que é muito intrínseco a muitas outras ARMYs negras.

“Eu tentei achar momentos onde eles interagiam com fãs negras, para ver como eles eram com elas,” ela disse. Na verdade, há seções inteiras no YouTube dedicadas especialmente ao tema. Canais como “KMusicAndBlackWomen” costumam fazer compilações de vídeos com títulos como “BTS e mulheres negras (Eles nos amam!)”.

Ainda assim, o sentimento “estranho” de Keeling continuou. Embora o BTS tenha um dos fandoms mais diversos do K-pop, Keeling ainda procurava garantias de ser bem vinda neste espaço. Seus receios não eram infundados: Na primavera de 2018, os fãs começaram a usar as hashtags #BlackARMYsequality e #BlackARMYsMatter, após uma notícia do Buzzfeed informar sobre casos de racismo e assédio no fandom. A hashtag #BlackOutBTS também é muito usada: todo dia 15 do mês, em uma espécie de “ARMY Selca Day”, os ARMYs negros postam suas selfies com o objetivo de encorajar o apoio e a celebração da comunidade.

“Eu nem sei como os coreanos se sentem sobre pessoas negras,” ela se lembra de pensar. Uma busca no Google mostrou vídeos de afro-americanos relatando desconforto ao serem encarados na rua quando viajavam para além da capital Seul. Os famosos rígidos padrões de beleza do país, incluindo uma aparente preferência por peles mais pálidas, também eram pontos de preocupação para Keeling, ela explicou.

Watkis, que se mudou da Jamaica para os Estados Unidos aos 6 anos, confirmou os mesmos temores, dizendo se sentir constrangida após assistir vídeos no YouTube que sugeriam que alguns coreanos poderiam “ver pessoas negras como sujas”. A dupla de amigas ficou desapontada, mas não desistiu no fandom mesmo assim. Watkis explicou que ela prefere “estar consciente” e “estar preparada nessas situações para não se machucar.”

Talvez o pensamento de Najaah Phillips sobre seu lugar no fandom seja um pouco diferente, contudo, como resultado de seus muitos anos como ARMY. Quando eu me apresentei a ela na convenção, a garota de 20 anos estava muito animada com sua tiara do “Mang” da BT21 — uma indicação aos demais ARMYs que o rapper e dançarino J-Hope é seu bias.

“Quando eu era mais nova, eu me sentia estranha as vezes por não gostar necessariamente de tudo o que meus outros amigos gostavam,” ela disse. “Quando meus amigos estavam todos curtindo One Direction, eu estava firme e forte com meus grupos de K-Pop”.

A especialista em fonoaudiologia do Brooklyn entrou para o fandom do BTS um ano após o debut do grupo, em 2013. Ela era fã de animes durante seus anos de escola, o que a levou ao seu primeiro grupo de K-Pop, SHINee, na sexta série. Mas foi o álbum Dark & Wild, cheio de hip-hop, que falou mais alto em seu coração, e os integrantes do grupo, usando sua conta no Twitter e vlogs constantes, pareciam seus amigos.

“RM — bom, eu os acho por seus nomes de nascença — então, Namjoon e Yoongi [ou SUGA] falavam muito sobre as músicas de rap que eles cresceram ouvindo, R&B e Tupac,”, Phillip mencionou. “Eles também gostavam muito de Kanye, e eu também. E eles nunca usavam essas influências de uma maneira fetichizada como eu vejo outros grupos fazendo, isso foi muito importante.” (Músicas como “Outro: Her”, de 2018, revelam como RM é um grande fã de Tupac).

Essa impressão pareceu ser muito importante também para o grupo, principalmente quando sua popularidade começou a crescer internacionalmente, e os convites para premiações nos Estados Unidos começaram a chegar. O grupo composto pelos rappers e compositores SUGA, RM e J-Hope e os vocalistas Jin, V, Jimin e JungKook mencionou seus ídolos do rap e R&B diversas vezes em entrevistas estadunidenses, mesmo quando os entrevistadores insistiam em falar sobre atos do pop como One Direction e Taylor Swift.
Em uma conferência de imprensa durante a The Wings Tour, o CEO da Big Hit Entertainment, Bang Shi Hyuk, atribuiu publicamente o som distinto e único do grupo ao fato deles terem como inspiração a black music. Ele também explicou como isso ajudou no sucesso do BTS: “Os integrantes gostam de hip-hop e black music. Essas duas coisas ajudaram a reduzir as barreiras de entrada no mercado ocidental. O K-Pop não é familiar aos ocidentais, mas eles estão familiarizados com hip-hop e black music.”

Mais uma prova do amor do BTS por hip-hop é a influência visual que a música teve no estilo inicial do grupo — algo que também pode ser observado em outros grupos de K-pop, em níveis diversos, sendo até algumas vezes classificado como apropriação cultural direta.

Em seu debut televisionado em 2013, o BTS apareceu vestido com correntes de ouro, bandanas e muito couro, quase uma paródia de um vídeo de rap. Nessa época, a escolha (um tanto infeliz) de estilo de cabelo do rapper RM acabou passando dos limites da influência cultural, mas felizmente o grupo abandonou o estilo. Hoje, eles buscam por misturas entre o streetwear popularizado pelos rappers americanos e roupas típicas dos idols de K-pop.

Mas, para as jovens fãs negras que precisam se sentir vistas, poucas coisas foram tão representativas como a série de vídeos do grupo, American Hustle Life. Ela se tornou uma fonte constante de conforto — prova de que o amor entre o grupo e seus fãs negros é recíproco.

A emissora coreana Mnet estreou o reality show em 2014. Os vídeos acompanham os sete rookies à época, logo após eles desembarcarem em Los Angeles para sua “imersão na cultura do hip-hop”. Quando Coolio e Warren G, grandes nomes do rap da Costa Oeste, se tornam os “mentores” do grupo, a afeição do BTS pelo gênero musical e sua história se torna ainda mais palpável.

Além disso, eles não tratam a cultura negra e da black music como um conceito novo a ser tentado, como cabelos de cor neon para um novo comeback. Phillip, assim como Keeling, se lembra da série como uma revelação. “Eles interagem com pessoas negras o tempo todo,” Keeling riu.

Apesar de Phillip admitir que o American Hustle Life também teve seus pontos negativos na visão de alguns fãs, que acharam que os tutores que o grupo teve durante o reality poderiam ter sido mais agradáveis com eles, ela vê a existência do reality digna de nota.

“Eles tiraram uma parte de seu dia para aprender sobre essa cultura,” disse Phillip. “Eu não vi nenhum outro grupo de K-pop fazer isso.” Sem contar o humor hilário dos integrantes e suas tentativas fofas e adoráveis de flerte, ao tentar recrutar pessoas para o vídeoclipe gravado durante o reality. Uma coleção de interações digna de memes, que Keeling acha fofa e reafirmadora.

Ser uma ARMY negra está longe de ser uma tarefa fácil, contudo. Em meio a conversas sobre questões raciais e de choques culturais, também há espaço para assuntos como lições de coreano. Keeling e Watkis se inscreveram recentemente em uma aula de coreano em D.C. Elas já fizeram novas amizades com vários outros alunos, incluindo outra ARMY negra, depois de ver sua capinha de telefone da BT21.

“Nós estamos planejando visitar a Coreia no ano que vem, para ensinar inglês lá em alguns anos,” Watkis revelou. “Então aprender a língua, conhecer a cultura e a comida… é um processo lento de assimilação”.

“Qualquer pessoa que goste de K-pop acaba se tornando mais aberta à outras culturas, querendo ou não,” disse Phillip. “Mas eu acho, pessoalmente, como fã do BTS, que isso me deixou mais aberta a ser mais empática com as pessoas”.

Phillip atribuiu isso à natureza abrangente do fandom do BTS: “Você tem um fandom cheio de pessoas de todas as idades, gêneros, sexualidades e realidades, e você meio que sabe que todo mundo tem seus próprios problemas — mas é legal ver como as pessoas se unem.”

Quanto a mim, eu mal ouvia sobre o BTS há um ano. Uma colega de trabalho tinha me recomendado o álbum Love Yourself 結 ‘Answer’. Mas eu não liguei muito para ele, até que fui parar em uma sala de emergência de um hospital, uma noite dessas, quebrada tanto física quanto mentalmente. Enquanto eu esperava o remédio fazer efeito, coloquei a primeira música do álbum para tocar: “Euphoria”. eu estava procurando uma distração. Ao invés disso, no ano seguinte, o BTS se tornou meu remédio. Não, os ad-libs angelicais do JungKook não curaram minha dor, mas a celebração mágica do grupo da black music garantiu minha lealdade aos seus ARMYs.

Fonte: Rebecca Thomas @ Refinery 29

Artigos | por em 04/03/2020
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