A opinião de um pai perplexo com a obsessão de sua filha pelo BTS

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A opinião de um pai perplexo com a obsessão de sua filha pelo BTS

Na música “Daughter”, interpretada por Loudon Wainwright III no filme Ligeiramente Grávidos de 2007, há um trecho que diz:  “Aquela na água é minha filha, tudo o que ela sabe eu que ensinei/ Tudo que ela sabe.”

Sim, essa é uma letra arrogante e narcisista, eu reconheço. Mas quando minha filha tinha 3 anos, e eu era um pai solteiro, isso meio que resumia como eu costumava pensar. Minha influência paterna era tão grande, eu acreditava, que os conteúdos predominantes dos pensamentos dela eram originados por mim (e claro, de sua mãe).

Mas agora minha filha está com 15 anos, e o volume de seu conhecimento agora que pode ser diretamente atribuído a mim é apenas: O melhor pão bagel vem do Brooklyn, e Eli Manning é um quarterback melhor do que as pessoas acham que ele é.

Minha filha está assimilando conhecimentos através de seu próprio filtro. E a cada dia mais, as experiências do pai significam menos. Em poucos anos, eu fui do céu ao inferno.

Normalmente, para aprender o que se passa na cabeça da minha filha, eu tenho que implorar a ela para que compartilhe algumas coisas comigo, o que não é nada fácil. Mesmo assim, não é tão difícil descobrir pelo menos uma coisa que ocupou sua mente neste último ano: o grupo sul-coreano conhecido como BTS.

Eu me senti inadequadamente mal informado sobre o fenômeno do K-pop, patrocinado por uma gigantesca massa de empresas de entretenimento. Bastou apenas o sinal da minha filha colando pôsteres nas paredes de seu quarto de jovens asiáticos em seus 20 e poucos anos para eu me adentrar.

Combinando hip-hop com harmonias pop e coreografias atléticas, os sete integrantes do BTS – RM, Jin, SUGA, J-Hope, Jimin, V e JungKook – formam hoje o grupo mais popular do mundo. O álbum deles, Love Yourself 轉 ‘Tear’, alcançou o topo da Billboard 200 em maio de 2018, o primeiro e único artista de K-pop a conquistar tal feito. Os meninos, que deram início a carreira em 2013, cantam majoritariamente em coreano e japonês, com ocasionais trechos em inglês. Eu preciso dizer que eles são talentosos.

O BTS é amado, nas palavras do New Yorker, com ‘êxtase histérico’ por seus fãs, conhecidos como ARMYs. Escrevendo no jornal, Odyssey, uma jovem chamou seu integrante favorito, V, de “salvador”, adicionando, “Quando ele morde os lábios. Eu juro que quase morro.”

Os garotos, por sua vez, amam seus fãs e os mimam, de acordo com o Buzzfeed. Eles discutem abertamente sobre os direitos LGBTQI+, saúde mental e a pressão que os jovens enfrentam em busca do sucesso profissional – todos assuntos polêmicos na Coreia do Sul, diz a Rolling Stone.

Os ARMYs tem uma enorme presença online. Relatórios da Bloomberg dizem que o BTS quebrou o recorde mundial de engajamentos no Twitter em 2017, o que significa que o número total de vezes que um tweet relacionado ao grupo foi publicado ou favoritado superou meio BILHÃO – mais que o Presidente norte-americano Donald Trump (213 milhões) e o cantor Justin Bieber (22 milhões) combinados.

Em setembro do ano passado, o septeto sul-coreano foi às Nações Unidas espalhar uma mensagem de amor. E na semana passada, o filme “BTS World Tour: Love Yourself in Seoul” estreou em mais 3,800 cinemas e 95 países, a maior estréia de um evento musical nos cinemas de acordo com a Billboard.

Levei minha filha e suas amigas para um cinema em Delaware para assistir ao filme. Ela não gritou nem xingou; simplesmente assistiu atentamente. Eu adoraria levá-la a um show deles, mas eu não consegui um ingresso para o show esgotado deles no Citi Field no verão passado. Mesmo assim, tivemos um natal digno, com muitos produtos oficiais do BTS ao redor da árvore.

Eu já conheci o amor fervoroso de fãs antes. The Beatles, David Cassidy, The Monkees, Michael Jackson – todos eles despertaram reações intensas de garotas e mulheres que convivi e cresci junto.  Nem todos os fãs do BTS são do sexo feminino, mas muitos presentes no Twitter parecem ser.

“É uma experiência em grupo que dá às garotas permissão para se animarem de verdade sobre algo inatingível e idolatrado,” diz a psicóloga de Seattle, Christine Nicholson, especialista em Psicologia feminina e que em seu passado gritou muito por Elvis. “Você pode deixar seus sentimentos perderem a noção de uma maneira segura. É viciante.”

A experiência BTS mostra como minha família mudou ao longo do tempo, desde quando minha filha costumava me pedir para tocar guitarra e cantar músicas do Springsteen com ela – uma memória gloriosa para mim, talvez um pequeno embaraço para ela.

Os pais percebem que eles precisam aprender seu lugar, e abrir espaço – e abrir mais espaço ainda – para que seus filhos possam crescer.

É por isso que eu me animei com os sete artistas coreanos e seu brilho radiante e roupas da moda. Pais desatualizados, como eu, não possuem muito estilo.

Como Jimin canta em “Serendipity”: “O mundo todo está diferente do [dia de] ontem.”

Já era tempo de eu perceber isto.

Fonte: Alfred Lubrano @ Philly

Artigos | por em 16/02/2019
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