Afeto que transborda: sobre BTS, Queer Eye e mais amor, por favor

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Afeto que transborda: sobre BTS, Queer Eye e mais amor, por favor

“Que alívio que somos sete,
Que alívio que temos uns aos outros.”

 

As lágrimas raramente são contidas quando se trata do BTS abrindo o coração sobre o significado que os sete integrantes têm um para o outro – se para as fotos da versão U do Love Yourself: Tear os meninos assistiram o vídeo mais triste do mundo para chorar para os cliques, tudo que bastaria para mim era a carta do Taehyung para o Jimin no último episódio da segunda temporada do Bon Voyage. Exceto que, nesse caso, difícil seria conter toda a emoção.

Porque sejamos bem honestos, convívio social não é a coisa mais simples do mundo. Sim, o ser humano precisa de companhia, de estar em contato com os seus, mas isso não torna a tarefa de se dedicar a construir uma relação com alguém algo fácil. Famílias não são perfeitas, as complicações surgem no dia-a-dia mesmo junto àqueles com quem compartilhamos laços de sangue, e a vontade de se isolar e viver junto dos pinguins em algum lugar distante depois de um momento de tensão sempre aparece. O que dirá então conviver com colegas de trabalho, pessoas de lugares e vivências tão diferentes das nossas, unidas por um objetivo e não exatamente o afeto desenvolvido entre elas? É comum demais encontrarmos grupos de pessoas que apenas aturam umas as outras nesses meios, que existem em um mesmo espaço, porque precisam, não porque querem.

O BTS nos fez esquecer que no princípio eles eram apenas colegas de trabalho.

Muito se discute na mídia o que faz o BTS ser o BTS, estudos longos e detalhados sobre como eles se tornaram a potência musical que são hoje, e todos eles trazem argumentos muito corretos em suas análises. Sim, é a música e seus temas e melodias, é o visual elaborado e os clipes bem produzidos e as coreografias incríveis, sim, é o fato de que podemos nos identificar com cada um dos garotos e de que sentimentos eles falam conosco, sim, é o mercado e as redes sociais e o momento e fazer a coisa certa na hora certa. É tudo isso, mas o que atrai o público a esses sete meninos tanto quanto as outras coisas é o afeto que eles têm um pelo outro.

O mundo do entretenimento é cruel e frio e todos os adjetivos possíveis usados para definir  esse mercado de maneira justa. As pessoas trabalham juntas o tempo todo e sorriem para as câmeras em abraços de lado e sinais de paz e amor, enquanto sites de fofoca continuam ganhando seus cliques com notícias de fulano odeia secretamente sicrano – e não sempre, mas boa parte das vezes é verdade. Não é preciso ter nenhum Oscar na prateleira para fingir afeição entre colegas – se ela é acreditável ou não, bom, esse já é um buraco mais profundo, mas interessante de se cavar.

Às vezes achamos ouro nos lugares onde menos esperávamos.

Como por exemplo… Queer Eye. Até não muito tempo atrás, tudo que eu sabia sobre o reality show consistia de: a) a Netflix estava fazendo um remake;  b) era algum tipo de programa de transformação; c) um dos jurados fixos de RuPaul’s Drag Race tinha feito parte do elenco original. Informações aleatórias e desconexas que me fizeram começar a assistir pra espantar o tédio de um domingo dias depois da segunda temporada estrear. Manter o foco em alguma coisa por tempo prolongado tem sido uma tarefa difícil pra mim no último ano, o que entre outras atividades muito mais importantes, me fez perder também o costume de assistir séries – perceber que eu já não era a adolescente que tinha um calendário de quais séries saiam em qual dia da semana e em que momento do meu dia eu poderia assistir um episódio foi um choque no início, pra ser sincera (maratonas, então? Um termo que meu vocabulário quase não conhece mais).

Eu não estava esperando muito de Queer Eye. Talvez uma mistura de Irmãos a Obra com Esquadrão da Moda. Não querendo expor meu sulismo, mas… bah. Que tapa na cara foi o primeiro episódio. E o seguinte. E o depois daquele. E todos os outros, até o minuto final da segunda temporada, misturado com a dor no coração por tudo ter terminado tão rápido, deixando para trás uma sede por mais.

Mais histórias, mais momentos para rir e para chorar. Mais casas lindas e cortes de cabelos e barras de mangas dobradas. Mais amor, por favor.

Ao longo dos dezesseis episódios de Queer Eye,  o que mais me intrigou foi a química entre os tais (incríveis, doces, sensacionais) Fabulous 5. Mais do que empatia e construção de um diálogo com o participante da vez, as interações entre Antoni, Bobby, Jonathan, Karamo e Tan entretêm, emocionam, deixam aquela sensação quentinha no peito e a vontade de abraçar cada um deles (e proteger de todo o mal do mundo). Tudo tão bonito que a dúvida fica no ar: será que essa amizade é de verdade?

É triste que esse questionamento seja a primeira coisa a vir na cabeça, mas em tempos de confiança que toma forma de cacos de vidro, bom, não é de se admirar. A investigação, então, começou com a reação mais natural do mundo: buscar todas as @s do elenco nas redes sociais e me afogar numa abundância de genuidade, carinho e respeito mútuo. Apesar da possibilidade de maquiar nossa vida online o máximo possível, existem coisas que não podem ser fingidas, principalmente por muito tempo. O vídeo em que os fabulosos abraçam Jonathan, todos ao mesmo tempo, após a descoberta de que seu show foi indicado ao Emmy, foi um dos momentos mais puros que lembro de ter visto em muito tempo – principalmente porque nenhum deles sabia que estava sendo gravado.

Curiosamente, durante toda essa pesquisa para determinar que ainda existe esperança nos seres humanos, tudo que eu conseguia me lembrar era de sete meninos do outro lado do oceano.

O afeto entre Seokjin, Yoongi, Hoseok, Namjoon, Jimin, Taehyung e Jungkook é tanto que transborda.

Por todas as coisas que viveram juntos nesses últimos anos – as boas, as ruins, o limbo de não saber o que esperar do futuro – e, simplesmente, porque são estes sete garotos, crescendo e aprendendo juntos. É enxergar além das palavras colocadas no papel no Run e no Bon Voyage: é como eles olham uns para os outros quando ninguém está prestando muita atenção, como agem, silenciosamente, para garantir que todos estejam bem, como conhecem cada detalhe como a palma de sua própria mão. O BTS não precisa ficar bradando aos sete ventos como gostam um do outro e a importância de estarem juntos. A gente consegue ver, nos abraços e nas lágrimas, nas risadas e nos silêncios. Por tudo que sabemos e vimos, e aquilo que apenas os sete compartilham.

Talvez o BTS seja o mais próximo da existência de almas gêmeas nesse mundo.

E por que isso é tão importante pra gente aqui, no nosso cantinho, amando de longe essas pessoas?

Cada um tem sua própria resposta, mas pra mim, em particular, é uma chama de esperança. É saber que se essas pessoas se encontraram – por obra do destino ou não – talvez eu também encontre os meus próprios pedacinhos de quebra-cabeça. É conseguir confiar nas pessoas e não me sentir boba por acreditar. E acreditar, no meio de todas as vozes que não se calam na guerra da minha mente, que faz sentido estar aqui. Que não estou sozinha. Que o hoje pode ter deixado um gosto amargo na boca, mas o futuro também pode ser doce.

Nesses anos em que eu me divido entre escrever fanfic e histórias originais e textos absurdos nos campos da internet, conheci alguns autores que diziam que o que tornava histórias mais reais era a dor e a violência  e as manchas de sangue escorrendo no final da página. Mas o amor e o afeto são reais, tão genuínos quanto a escuridão. A gente precisa normalizar a ideia de que relacionamentos – de todos os tipos – saudáveis e afetuosos são tão reais e possíveis quanto qualquer outra coisa. O BTS ajuda, talvez até sem perceber, a reforçar essa ideia, a espalhar por aí o poder dos laços afetivos e o quanto eles impactam nossas vidas.

Existe sim amor em São Paulo, em Seul, aqui no interior do Rio Grande do Sul e através dos sete mares.

Existe amor em todos os lugares, e você ainda vai encontrar também.


Por maureen h. @ btsbr

Artigos | por em 19/08/2018
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