Letra e música: O contador de histórias Min Yoongi

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Letra e música: O contador de histórias Min Yoongi

“Selvagem”, “franco” e “sábio”, SUGA não tem papas na língua. O BTS é conhecido por suas letras ricas que abordam uma diversidade de tópicos. Se o líder RM conta com seu jogo de palavras intrincado e a construção de imagens belas, SUGA mantém as coisas simples ao frequentemente se referir às suas próprias experiências em letras. Na verdade, um estudo das suas letras revela muito da história pessoal dele.

O amor de SUGA pela música é a primeira mensagem que se recebe através de suas letras, mais especificamente em “First Love”, um título que ele dedica ao piano que ocupa um dos cantos da casa da sua infância. A música fala sobre o curto rompimento que teve com o piano quando era criança e como ele se sentiu quando encontrou seu caminho de volta para o instrumento.

“O estranhamento foi só até eu tocá-lo novamente
Ainda que eu tenha passado muito tempo longe
Sem repulsa
Você me aceitou de novo
Sem você, eu não sou nada.”First Love

Mas como esse rapper amante do piano se tornou idol? A história continua com a mixtape de 2016, Agust D, que fala muito sobre a jornada ao estrelato e os sacrifícios que vieram com ela. Em “724128”, SUGA reconta sua audição para a Big Hig Entertainment, o motivo pelo qual se mudou para Seul e a sua vida como trainee.

“Tentei ir bem fazendo música em Daegu,
ser o diretor de uma academia de música ou algo assim,
esse pensamentos chegavam a mim.
De qualquer maneira, eu só vivo essa vida uma vez,
É melhor eu tentar ser o número um.
O número um que não consegui atingir pelo estudo,
parecia que conseguiria pela música.
Ao meu redor, dez para um disseram,
Esse idiota está sofrendo de uma doença falsa de novo.”“724128”

Todos nós sabemos no que essa decisão resultou. De garotos de uma empresa pequena tendo sucesso com um cover de “Born Sinner”, de J. Cole, as superestrelas de hoje, a jornada do BTS é uma verdadeira história de superação.

“Ainda não sou nada além de um rapper de Daegu rural,
Mas rabisquei a palavra “pro” por cima de “amador”.”“Born Singer”

SUGA deixa claro que o caminho não foi fácil. Ensaios sem fim, um acidente durante seus dias de trainee, sua saúde mental em deterioração – as letras que ele escreve provavelmente revelam mais do que é considerado “apropriado”. Mas ele as expressa com uma sinceridade desconcertante. Junto com o rap emotivo, a música de SUGA é íntima e crua. Ele leva o ouvinte para dentro de sua própria cabeça e, enquanto você está lá com ele, você sente exatamente o que ele sente. Nem todo mundo quer estar tão próximo assim de um artista – alguns preferem a distância –, mas a experiência de uma arte assim pode curar quando toca o lugar certo.

A verdadeira obra prima da mixtape é “The Last”. A música é única, não só porque adereça a luta pessoal de um artista com a depressão, mas porque SUGA fornece instâncias específicas da sua vida – como a visita ao psiquiatra que fez com os seus pais ou o dia em que se escondeu no banheiro antes de um show – para mostrar o quão real é. A música é feita para chocar.

“Eu tinha por volta de 18 anos quando minha fobia social começou,
É isso aí, por volta desse período
meu estado mental se tornou poluído,
Às vezes eu tenho medo de mim mesmo,
Graças ao meu ódio próprio,
e a depressão que veio brincar mais uma vez,
Min Yoongi já está morto (eu o matei)”“The Last”

Fora dos fandoms de K-Pop, idols frequentemente são (de forma equivocada) menosprezados como manufaturados, como artistas produzidos em massa, sem ser considerados como autênticos. Para SUGA, o conflito surge da sua inabilidade de conciliar o seu ideal de si mesmo como rapper, com a sua realidade como idol. Ele está acorrentado à ganância esmagadora por sucesso. A música é dividida em duas partes, com uma “ponte” as conectando.

“Se meu azar é sua felicidade,
então serei infeliz.
Se o alvo do seu ódio sou eu,
então subirei para a guilhotina.”“The Last”

O grito gutural ao fundo é seguido por uma quebra na letra. Ele aceita seu destino como idol e Min Yoon-gi, a pessoa e o rapper, sobe para a guilhotina. Em retorno, SUGA, que já provou “doçura e amarguras e até mesmo merda”, vê seus sonhos se tornarem realidade bem em frente ao seus olhos.

“Coisas que eu só tinha imaginado estão se tornando realidade,
Meu sonho de infância está perante os meus olhos.
O gosto de me apresentar para apenas duas pessoas,
Agora a Tokyo Dome está em frente ao meu nariz.”“The Last”

No entanto, três anos se passaram desde o lançamento de Agust D e talvez as coisas tenham mudado desde então. Em um V Live feito após o lançamento de Love Yourself: ‘Answer’ em 2018, SUGA disse que foi ideia dele incluir uma coreografia na apresentação da sua música solo “Seesaw”, já que ele é, afinal de contas, um idol – indicando que ele pode ter entrado em acordo com a sua identidade enquanto idol.

Com o enorme sucesso do BTS refletido nas letras de muitas dias tracks arrogantes, muitos pensariam que SUGA tem tudo – “casa grande, carro grande, anéis grandes”, como ele diz querer na letra da música de debut do grupo “No More Dream”, lançada em 2013. Suas letras certamente sugerem isso. Em “Cypher pt. 4” ele se gaba:

“Dia de pagamento, salário, rolex no meu pulso,
Click clack para o bang
Click clack para o pow,
Estou tão alto, como você se atreve almejar isso,
Mesmo que você corra
Está alto demais para você alcançar.”“Cypher pt. 4”

Em “Agust D”, a faixa título da mixtape, SUGA chega ao ponto de dizer que a sua língua – ou, em outras palavras, o seu rap – te “mandará para Hong Kong”, gíria para dar um orgasmo ao ouvinte. A letra dessa música não é bonita. Não tenho certeza sequer se entendo o que ela quer dizer:

“Um vagabundo ou um inútil, e eu fack
E eu entalhei a história neste solo,
Rappers tão sem ritmo, eu sempre consigo foder com eles.”“Agust D”

Mas, em uma surpreendente demonstração de vulnerabilidade, SUGA continuou expressando suas preocupações nas letras que escreve. Em “Sea”, faixa escondida no álbum Love Yourself: ‘Her’, de 2017, ele diz:

“O deserto que um dia eu tive medo se tornou um oceano,
com nosso sangue, suor e lágrimas.
Mas, em meio a toda essa felicidade, o que são esses medos?
Nós sabemos muito bem que esse lugar foi um deserto.”“Sea”

Em “HOME”, do álbum Map of the Soul: Persona, ele reitera pensamentos parecidos:

“O mundo pensa que somos donos do mundo inteiro,
Casa grande, carros grandes, anéis grandes,
Se tenho tudo que eu quero, me sinto vazio,
Sentimento estranho, a pessoa que tem tudo.”“HOME”

É impossível não perceber a referência à música de debut do BTS.

Sempre sensato, SUGA reconhece em músicas como “Ddaeng” e “Never Mind” que, longe o desencorajarem, os haters só fizeram com que ele quisesse o sucesso ainda mais. Ele também agradece aqueles que ficaram ao seu lado, mais notavelmente o seu irmão mais velho a quem ele agradece em uma “Skit” da mixtape. Reconhecendo que SUGA precisou abrir mão de muitas coisas que gosta, além de precisar usar máscaras o tempo inteiro (“Outro: Her”), ele se faz muito claro acerca do preço do sucesso.

A moral da história que SUGA conta através de suas letras é incrivelmente persuasiva: se vocês trabalhar duro, muito duro, e perseverar apesar das dificuldades que vierem ao seu caminho, seus sonhos estarão ao seu alcance. SUGA destaca isso expressivamente em diversas músicas, como “Never Mind” e “Give It To Me”. Nesta última, ele diz:

“Você me pergunta como eu faço,
e eu realmente não tenho nada a dizer.
Pelo menos eu dormi menos e me mexi mais que todos vocês,
isso me trouxe até aqui.
Ainda não conheço o segredo do sucesso,
mas acho que sei sim sobre como é fracassar.”“Give It To Me”

A história de SUGA, como contada pelas suas próprias palavras, é sedutora: ela te desafia a sonhar, a dar aquele passo crucial para fora da sua zona de conforto. Te desafia a seguir o exemplo dele e ver se você também consegue atingir tanto quanto ele atingiu. As dificuldades certamente estão pelo caminho mas “vá em frente”, SUGA diz em “So What”.

“Nove em cada dez preocupações são apenas pântanos na sua cabeça.”“So What”

Sem surpresas, isso tudo foca no eu, na dor do eu e no pouco de egoísmo do eu ao seguir os próprios sonhos. É impressionante o quanto o lirismo de SUGA gira em torno dele mesmo – o arrebatador e egocêntrico “eu”. Essas letras não são sobre o que ele espera fazer pelos outros, nem mesmo sua família, diferente de algumas raras músicas parecidas feitas por outros artistas, como “Fear”, de Mino, ou “Happiness”, de Ovan. É auto-centrado e não totalmente admirável.

Em vez disso, é brutalmente honesto. O foco de SUGA em si mesmo, na sua saúde mental, sua ambição, sua luxúria pelo sucesso – abertamente demonstrado para o mundo inteiro ver – é um espelho para o ouvinte. Profundamente catártico, pode ressoar e trazer emoções similares para o ouvinte, deixando-o, portanto, livre desse peso, nem que seja por um curto período de tempo.

É raro um artista conseguir se conectar com seus fãs dessa maneira, e a honestidade brutal de SUGA o permite fazer isso.

Isso não quer dizer que todas as letras de SUGA giram em torno da sua própria história, mas elas certamente tendem sempre para o lado profundo. “Song Request”, de Lee SoRa (produzida por Tablo), é uma conversa entre uma mulher e o rádio. Enquanto passa por uma situação difícil, ela busca conforto no rádio, ou talvez na música, e pede ao DJ para tocar uma música para fazê-la chorar. O aparelho responde gentilmente, através da voz de SUGA:

“Sim, para alguns sou primavera, para outros, inverno,
sou o fim para alguns e o início para outros,
para um, sou felicidade, para outro, sou tristeza,
uma canção de ninar para alguns, barulho para outros,
Estarei com você no seu nascimento e no seu fim,
lembre-se, estamos sempre juntos, em qualquer lugar,
sempre irei consolar sua vida,
então se apoie em mim e descanse.”“Song Request”

Quem nunca teve um momento em que ouviram uma música e ela o levou de volta a um momento, som, cheiro ou sentimento em particular? A música tem o poder de nos mover, pode tornar triste um dia lindo, ou feliz um dia triste. As linhas poéticas de SUGA são odes ao poder da música.

Ademais, SUGA acrescenta algumas variações ao seu rap, elementos que o fazem um pouquinho diferente em cada música. Alguns experimentos têm mais sucesso do que outros (estou olhando para você, “Boy With Luv”), mas é divertido esperar por essas pequenas mudanças. Os fãs também gostam de procurar pelo sussurro “SUGA” que vem antes de seus raps.

Tudo isso, e muito mais, faz de Min Yoon-gi um dos letristas mais intrigantes da indústria musical – um contador de histórias disfarçado de músico e rapper. Sua personalidade brilha através de suas letras, seja o lado vulnerável ou sua confiança agressiva e destacada. As letras de SUGA desorientadoras em sua simplicidade; e sua imagem como um idol fofo, o “gatinho” do fandom, um tanto quanto enganosa.

Apesar de escolher o caminho do sucesso comercial enquanto idol, SUGA reteve sua unicidade em suas letras, um sabor que somente ele pode trazer para a música. E, em retorno, levou conforto para muitos. Mesmo que ele escolha parar de contar a sua história através das letras no futuro, as músicas já lançadas provavelmente continuarão a oferecer conforto por um longo, longo tempo.

Fonte: SeoulBeats

Artigos | por em 01/11/2019
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