O ativismo de SUGA supera as expectativas e desafia todas as normas da sociedade

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O ativismo de SUGA supera as expectativas e desafia todas as normas da sociedade

Aviso de gatilho: O artigo a seguir trata de assuntos como depressão, ansiedade e menções ao suicídio — tudo no contexto das experiências de SUGA. Se você é sensível a esses assuntos, leia com cautela. Se você se sentir vulnerável, procure o Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188 ou pelo site www.cvv.org.br. Você não está sozinho.

A música ‘The Last’, de Min Yoon-gi, começa com a linha: “Do outro lado do rapper famoso está o meu eu fraco.” Ele continua: “Às vezes, eu tenho medo de mim também por causa da depressão e do nojo por mim mesmo.

Yoongi, mais conhecido pelo nome artístico SUGA e por ser integrante do grupo sul-coreano mundialmente famoso BTS, lançou ‘The Last’ em 2016, quando as taxas de suicídio eram a causa número um de morte entre pessoas jovens na Coreia do Sul. Ainda que o país tenha observado um crescimento econômico exponencial desde o fim da Segunda Guerra Mundial, além de avanços tecnológicos e renome no mundo do entretenimento, por baixo dessas qualidades louváveis, se encontra uma crise de saúde mental urgente. Jovens estão batalhando contra a depressão e a ansiedade devido à múltiplas pressões, incluindo o aumento do desemprego entre universitários recém-formados uma vez que a economia da Coreia do Sul vem desacelerando nos últimos anos.

Para aqueles que não são familiarizados, as celebridades coreanas raramente são encorajadas a falar sobre saúde mental, dado a natureza de tabu que o assunto possui. No entanto, SUGA sabia que esse tema precisava ser conversado, então, ele deu o primeiro passo. 

Além de ser uma faixa revolucionária, ‘The Last’ é apenas uma das músicas da primeira mixtape de SUGA, Agust D, um projeto que mostrou o seu talento em raps tecnicamente desafiadores, em contar histórias e trazer uma assinatura energética desenfreada. O álbum chocou legiões de fãs devotados após o lançamento, não só por causa dos sentimentos e experiências sombrias compartilhadas por SUGA, mas também pela abordagem confrontativa com o tema da depressão. “O médico perguntou se eu–” diz SUGA, fazendo uma alusão à pensamentos suicidas, antes de ser cortado por um bipe. Ele, então, responde: “Eu disse que, sem dúvida, eu já estive assim antes.”

Fiquei em choque com essa confissão nua e crua e sobre como Yoon-gi nos permitiu ver seus pensamentos,” a fã e usuária do Twitter @blafbfly me comentou. Bfly, uma artista e entusiasta de música que possui muitos seguidores no Twitter, muitos deles também fãs de Yoon-gi e seus companheiros de grupo, admitiu ter SUGA como seu “bias”. “É o Yoon-gi trazendo os fatos, sendo meio gráfico nas partes mais sombrias e dizendo, ‘É você quem toma a decisão para se ajudar no fim’.

Saúde mental é apenas um dos muitos assuntos que SUGA aborda em Agust D, que traz o rapaz de 26 anos adotando um nome alternativo para se distinguir da sua presença no BTS. Cada música soa como uma mensagem de rebeldia. Especialmente a faixa que dá título à mixtape, que carrega um sample abrasivo com buzinas, um programa com bateria pesada e provavelmente o rap em coreano mais agressivo e tecnicamente difícil que você já ouviu. Caso você tenha pensado que essa merda toda foi docinha com SUGA, você está errado.

Vocês, rappers inúteis, deveriam agradecer por eu ser um idol,” ele diz.

Esses momentos líricos parecem com refutações aos espectadores que desprezaram a legitimidade de SUGA enquanto um artista de hip-hop só porque ele é parte do BTS. Para os desinformados, eles parecem com uma versão asiática do *NSYNC, um prato cheio para uma tendência sem substância e que só liga para aparências. Mas isso é só o hype, não a realidade. Não se SUGA puder evitar, pelo menos. “Meu tamanho é diferente para caber na categoria do K-pop,” ele avisa.

Desde muito cedo, SUGA se devotou à busca incansável por uma carreira na música. Isso pode ser observado em músicas como ‘First Love’, onde ele conta em detalhes como se apaixonou pelo seu primeiro piano. Ainda assim, essa busca já o deixou de mãos abanando com frequência. Em um popular vídeo de por trás câmeras, SUGA discute seus problemas com dinheiro: “Quando eu tinha 17, 18 anos,” ele começa, “se eu comesse um jjajangmyun de dois dólares, eu não teria dinheiro para pegar o ônibus. Mesmo se eu vendesse uma música, eu não era pago.

Em ‘724148’, SUGA dá detalhes sobre seu encontro com as audições da Big Hit Entertainment em 2010, para formar o que seria o BTS de hoje. “É a competição de rap organizada por Bang Si-hyuk,” ele lembra. Se SUGA quisesse sair da situação absolutamente desagradável que se encontrava, ele precisaria se destacar. Então, de uma maneira muito Yoon-gi, ele quebrou as regras e acrescentou produções extras a um dos instrumentais enviados para os participantes usarem. “A batida que eles nos deram para fazer os raps, eu mudei ela inteira,” disse.

Desde que lançou Agust D, SUGA continuou a se desenvolver tanto como homem, quanto como artista. Ele permanece produzindo faixas em larga escala, com um repertório que inclui a música ‘Eternal Sunshine’, com o influente grupo de rap Epik High. Mais recentemente, SUGA produziu ‘We Don’t Talk Together’ para cantora coreana de R&B Heize. A faixa ganhou o primeiro lugar no programa Inkigayo e estreou em quarto lugar no World Digital Song Sales Chart da Billboard. A música, produzida e escrita por SUGA, flui entre estilos musicais, do trap ao R&B tradicional, com instrumentação exuberante provendo uma doce saudade. A faixa certificou o nome de Yoon-gi enquanto um verdadeiro produtor de hits; mais especificamente, um “gênio musical” sendo procurando por inúmeros artistas e profissionais da indústria.

Conversas sobre o BTS tendem frequentemente a omitir menções a SUGA. E não é que SUGA seja um integrantes periférico do grupo, ou menos amado do que os seus outros seis colegas, ou sequer menos influente em questão musical. Mas ele é quieto. O Holofote com H maiúsculo normalmente vai para RM, o tradutor do grupo e líder; JungKook, o inabalável golden maknae do grupo; ou Jimin, o orgulho do fandom. No livro “BTS: The Review”, o pesquisador de K-pop Kim Youngdae descreve SUGA, em contraste, como “o talento escondido e a espinha dorsal musical do BTS.

SUGA parece não se importar em ficar majoritariamente nos bastidores, no entanto; ele ganhou uma reputação como integrante mais reservado do grupo. Quando aparece em uma faixa, é normalmente para prover um momento de agressão reflexivo e rápido, como as quatro barras em ‘FAKE LOVE’. Em Love Yourself 結 ‘Answer’, ele contribuiu com uma faixa solo (Trivia 轉: Seesaw), demonstrando seu gosto por melodias sóbrias em oposição à instrumentais mais dançantes e pop, similares àqueles encontrados em faixas recentes de RM. De forma quase chocante, SUGA canta, perambula e dança agilmente — uma lembrança de que, sim, Min Yoon-gi, o “rapper agressivo que não se encaixa na categoria idol”, também é uma estrela do pop e tem orgulho disso. Muito parecido com os seus trabalhos como produtor, ‘Seesaw’ é para lembrar a todos que o rapaz de 26 anos ainda tem muitas dimensões da sua personalidade e musicalidade para mostrar.

Além do seu foco na música e personalidade reservada, muita da adoração que SUGA recebe dos fãs assíduos e casuais vem do que ele faz fora da música. SUGA é o integrante com menos papas na língua do BTS quando o assunto é questões sociais e políticas. Ele já comentou publicamente sobre imagem corporal, encorajando os fãs a não pularem refeições e condenando a “grande mídia” por “fazer do ‘magro’ e ‘esbelto’ o único padrão de beleza possível”. Ele já falou sobre políticos e sobre o serviço militar obrigatória da Coreia. Falou, também, em apoio à mulheres muçulmanas, comunidades LGBTQ+ e compartilhou uma famosa mensagem filosófica sobre como “está tudo bem se você não tem um sonho… Se você está feliz, isso é tudo que importa.

SUGA vê a sua música como uma plataforma através da qual ele e seus companheiros de grupo são capazes de mudar o mundo. Durante uma a coletiva de imprensa do Love Yourself 承 ‘Her’, ele disse que “não é um álbum do BTS se não houver pelo menos uma faixa criticando a sociedade.” Esse ethos é parte do que faz o BTS tão único; eles lutam para erguer a mente e o espírito da sua audiência.

Um outro trabalho socialmente consciente do grupo é “Satoori Rap”, um lançamento antigo, antes mesmo do debut do BTS acontecer, onde a rap line abraça a união entre as regiões da Coreia e celebra o linguajar único. SUGA, celebrador devoto da sua cidade natal, Daegu, faz suas rimas no “dialeto Gyeongsang”, que compartilha com Jimin, V e JungKook. O carinho em acolher as diferentes culturas da Coreia do Sul é tanto um lembrete de que coreanos não são todos iguais, e um exemplo de como a fascinação do hip-hop em representar regionalidades não permeia somente nos Estados Unidos mas em todas as nações. 

Apesar da importância das mensagens de SUGA fora da música, o que ele comunica em meio ao seu trabalho está fazendo a diferença. O comentário de um fã em um vídeo de ‘The Last’ no YouTube ilustra o peso do seu trabalho: “Eu estava prestes a me tornar um dos jovens que fazem parte da taxa de suicídio, mas depois de ouvir os artistas que eu amo, decidi ficar.

‘The Last’, além de ser considerado uma das suas melhores obras, é também um dos muitos exemplos da rebeldia de SUGA contra as expectativas colocadas sobre ele. ‘The Last’ desafiou as expectativas sobre saúde mental e idols do K-pop; Agust D desafiou as expectativas sobre como artistas do K-pop devem fazer rap; ‘Seesaw’ desafiou as expectativas do que SUGA é capaz de fazer musicalmente.

SUGA é provavelmente o arquétipo mais puro do rap que o BTS e a música idol no geral têm a oferecer. Ele não tem qualquer interesse em ocupar o centro do palco do maior grupo pop do mundo. O seu DNA combina mais com rappers desafiadores como Tech N9ne e Verbal Jint. O amor da sua vida, o piano, não tem grandes coreografias. O hip-hop, ainda que seja o movimento cultural mais significante e o gênero musical mais popular do mundo, ainda não é “pop”.

Desafio é o pão com manteiga de SUGA, e o BTS é feito exatamente para isso. Desafiar expectativas permitiu que SUGA conquistasse a música. Desafiar expectativas do que um rapper pode fazer e como deve ser o levou ao BTS. Desafiar expectativas dos idols do K-pop fez dele um dos melhores rappers e produtores da Coreia.

O mundo sempre esperou certas coisas de SUGA. Mas o SUGA não está nem aí.

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Fonte: DJ Booth

Artigos | por em 10/10/2019
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