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Publicado em 08.12.2018
Crítica: Burn the Stage se aprofunda no fenômeno BTS
Burn the Stage: The Movie é poético, íntimo e, muitas vezes, hilário.

ATENÇÃO: Este artigo contém spoilers do filme Burn the Stage!

Há um momento em meio ao Burn the Stage, o filme-show do BTS, que parece profético: durante a parte norte-americana da Wings Tour — ou, mais especificamente, a 2017 BTS Live Trilogy Episode III: The Wings Tour para os ARMYs — os sete integrantes da sensação do K-Pop caminham em frente a um pôster dos Beatles. Esse encontro de ícones musicais aconteceu em março de 2017, dois meses antes do grupo levar para casa o prêmio Top Social Artist no Billboard Music Awards e nove meses antes da primeira apresentação do grupo na TV americana.

Mas onde a chegada dos Beatles nos palcos mundiais era dependente do público dos Estados Unidos (aparentemente, o ritual de passagem ideal para a maioria dos artistas), o BTS já estava esgotando os ingressos de arenas gigantescas ao redor do mundo sem a ajuda do grande público americano. O público choroso e ensurdecedor, no entanto, tem muita semelhança com a Invasão Britânica. O mundo da música pop mudou; ainda que a internet ajude a dividir os fandoms em diversas sub-culturas, o BTS se manteve uma força unida. E eles estão só começando.

Burn the Stage: The Movie é poético, íntimo e, muitas vezes, hilário. Mas o que ele certamente não é, é uma introdução para aqueles que não são fãs. Na verdade, o marketing do filme não está sendo feito para quem não é. O filme, adaptado da série de oito episódios de mesmo nome produzida pelo YouTube Red, vendeu mais que o filme do One Direction, Where We Are, ao ser lançado no começo de novembro, tanto que volta aos cinemas de todo mundo durante a semana do dia 5 de dezembro.

Eu assisti o Burn the Stage: The Movie em Mumbai, esse mês. Não tivemos sorte o suficiente para receber o filme de primeira devido a problemas com censura, mas os ARMYs são tão dedicados que não só convenceram as grandes redes de cinemas a levar a experiência de um show para a Índia (o grupo, lamentavelmente, nunca se apresentou aqui), como a primeira lista de sessões logo explodiu para 45 cidades diferentes. A minha sessão das 10 da manhã estava esgotada. Todos no cinema gritaram para o logo da BigHit Entertainment, mais alto que fãs de super-heróis para o logo da Marvel. E, sim, o adorável Lulu da Pomerânia de V, Yeontan, recebeu os aplausos mais altos da manhã.

A comparação com a Marvel é apta, uma vez que Burn The Stage se encaixa no padrão de fandoms que atravessam plataformas na era das redes sociais e seus anexos que formam histórias. Assistir ao filme é como seguir uma pequena parte de uma saga em andamento. Até mesmo novos recrutas do BTS ARMY provavelmente já sabem da origem do grupo pelos Bangtan Bombs, a web-série que começou em 2013. O filme, portanto, opta por mostrar o grupo — os rappers RM (Kim Namjoon), SUGA (Min Yoongi) e o também dançarino J-Hope (Jung Hoseok) e os vocalistas Jin (Kim Seokjin), também conhecido como Worldwide Handsome, Jimin (Park Jimin), V (Kim Taehyung) e JungKook (Jeon Jungkook) — em formação completa, tanto como indivíduos quanto como uma máquina bem-lubrificada.

O filme contorna a energia das performances bombásticas do grupo para nos mostrar os momentos entre as músicas. Vemos intervalos rápidos por entre a loucura nos palcos, ancorado por closes de toalhas frias e bolsas de gelo em pescoços machucados ao mesmo tempo que os assistentes re-aplicam maquiagem freneticamente antes da próxima performance. Como os próprios integrantes, o filme não se apega a essas dificuldades. Em vez disso, as aceitam como efeitos colaterais comuns (e até mesmo necessários) de ser a boy band mais famosa do planeta.

O único desapontamento notável de Burn The Stage, no entanto, é que o filme não só evita os aspectos performáticos (mantendo a audiência a uma distância visual e auditiva dos shows), mas o faz apesar de sentir que está construindo um clímax musical. Esse clímax, lamentavelmente, nunca chega.

Para os fãs que nunca viram o BTS se apresentar ao vivo, parece como uma promessa não cumprida, especialmente para uma boy band tão em controle da sua própria música e mensagem. A batida aumenta quando o grupo está prestes a subir no palco mas, quando emergem, o filme corta para outras apresentações, mostrando meros pedaços. A primeira vista, parece um bom jeito de nos levar por trás das câmeras e criar um contexto fundacional para o que acontece em cada show antes de termos a chance de experienciá-lo, mas depois da quarta ou quinta vez sem nenhuma energia ser liberada, uma pequena frustração começa a se formar.

O filme entrega o que propõe no seu foco primário: dos ensaios às reuniões de portas fechadas aos churrascos dos integrantes, assistir ao BTS em seu próprio elemento é um grande prazer. O filme espera que os espectadores dedicados saibam o suficiente sobre os meninos porque não pinta quadros individuais de cada um; exceto SUGA, que tira um intervalo da loucura com uma taça de vinho, relaxando em uma cadeira confortável enquanto o resto do grupo pula na piscina e comem direto da churrasqueira. A dinâmica coletiva do BTS é animada e inspiradora. Eles poderiam fazer isso em todas as turnês.

As visitas a vários países na divulgação que durou um ano são interrompidas por poemas, seja passando pela tela ou narrados pelo próprio grupo. Eles falam sobre o tempo que se estende perante eles como oceanos, das infinitas possibilidades frustradas pela saudade de casa e lesões ocasionais. Eles estão todos com vinte e poucos anos, então ter que lidar com limitações físicas como eles lidam é preocupante, mas o que separa a história deles das de outras bandas é a completa ausência de ego e conflito.

A primeira vez que eles apontam seus erros, é tão casual e direto que é compreensível esperar por uma briga. Mas não é quem o BTS é. Eles são um grupo que fala positivamente sobre saúde mental e Love Yourself, que o sucesso coletivo depende no bem-estar de cada indivíduo. Durante os intervalos dos ensaios, eles são amigos. Eles provocam uns aos outros, mas também cuidam da felicidade do outro; uma demonstração única de afeto masculino, baseado em intimidade brincalhona impossível de ser entendida somente através das câmeras. Mesmo as legendas tentam permanecer o mais autênticas possível, se recusando a localizar as piadas e trocadilhos que não funcionam quando não são em coreano (as legendas oferecem explicações para cada piada, embora elas passem rápido demais para serem lidas).

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Em algumas vezes, o diretor Park Jun-soo está presente para as reuniões pré-show; “Bang Bangtan!” o grupo grita em uníssono, animando uns aos outros antes de tomarem o palco. Outras vezes, são nos dado fragmentos de seus ‘vlogs’ pessoais enquanto escrevem música, ou se exercitam, ou relaxam nos quartos de hotel, continuando a tradição da narrativa pessoal do grupo. As multidões aparecem em bandos, balançando suas ARMY Bombs em sincronia com as apresentações ao vivo — uma visualização da energia que emerge do palco e se espalha pelo público — e os rapazes retornam cada mínima demonstração de afeto que lhes é mostrado.

RM, o falante de inglês oficial do grupo (auto-didata ao assistir Friends infinitas vezes), demonstra uma presença importante mesmo longe das câmeras da televisão. Ele fala sobre como o grupo ama o esforço que os fãs fazem para entender coreano, e como eles esperam retornar o favor ao dar o último discurso dos shows na língua local. Ainda que tudo isso seja parte do ‘pacote’ internacional do grupo, vem de um lugar de autenticidade e uma autonomia artística rara para o K-Pop. Isso fala muito sobre o espaço que eles ocupam na consciência global, ir além para unir as pessoas respeitosamente através da língua.

Finalmente, a falta de performances apresentadas na versão final pouco importa, especialmente em um tempo onde fãs provavelmente assistiram a turnê inteira no YouTube. Os ARMYs não reclamaram. Não quando estão sendo presenteados com o que parece ser conteúdo extra exclusivo de um DVD e que não está disponível na internet, na forma de uma jornada de um ano resumida em 84 minutos. É um ano de sangue, suor, lágrimas, risadas e apoio que os fãs podem experienciar com seus ídolos.

Além disso, os rapazes parecem retornar toda a adoração na mesma medida, fazendo o máximo que podem para fazer com que frases ensaiadas sobre seguir os próprios sonhos soem autênticas, mesmo em línguas que eles não falam. O filme é mais confortável do que visceralmente excitante, e isso não é algo ruim quando o conforto vem de uma unidade global. A maioria dos filmes-shows capturam um espírito da época que vivem, mas Burn The Stage: The Movie parece nos contar sobre um futuro melhor.

Fonte: Polygon
Trans eng-ptbr; nalu @ btsbr



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